Cem vezes Magno Nunes

Primeiro jogador centenário da história do Maricá F.C, o lateral relembra momentos marcantes, títulos e fala da identificação construída com o clube ao longo dos anos

Os números são elementos essenciais do futebol. Dos que identificam as camisas dos jogadores aos jogos, títulos, gols e assistências. Mas algumas marcas carregam significados que vão além das estatísticas. No Maricá F.C, os 100 jogos de Magno Nunes representam muito mais do que uma contagem: simbolizam história, pertencimento, superação e fidelidade a um projeto que o lateral direito ajudou a construir dentro de campo.

Primeiro jogador “centenário” da história do clube, Magno se tornou uma das principais referências do Tsunami nos últimos anos. Presente em momentos históricos, como os títulos conquistados e o acesso à Série A do Campeonato Carioca, carrega no currículo uma trajetória marcada pela persistência desde a infância até a consolidação como ídolo do clube.

Um sonho

Natural de Vila Velha, Espírito Santo, Magno precisou amadurecer rapidamente para perseguir o sonho de se tornar jogador profissional. Ainda adolescente, deixou a casa da família para tentar construir uma carreira no futebol.

“Saí de casa com 13 anos para correr atrás do meu sonho. Passei em uma peneira e vim para o Rio de Janeiro jogar no Campo Grande, no centro de treinamento do Pedrinho Vicençote (ex-Vasco, Palmeiras e Seleção). Alguns empresários levavam jogadores para a Itália e, depois de alguns meses, fui selecionado também.”

A oportunidade de atuar no futebol europeu parecia próxima, mas acabou interrompida pela documentação:

“Em 2006 fui para a Itália, mas, por conta da documentação, não consegui permanecer legal lá. Foi um momento difícil porque era um sonho muito grande. Precisei voltar para o Campo Grande e continuar minha caminhada no Brasil.”

Depois disso, passou pelas categorias de base do Botafogo de Futebol e Regatas, onde conheceu Douglas Oliveira, atual diretor do Maricá F.C, e figura importante em sua trajetória:

“No Botafogo conheci o Douglas, que hoje é diretor do Maricá F.C. Construímos uma amizade muito forte desde aquela época. Depois rodei por vários clubes, tive momentos bons e também dificuldades.”

Desilusão e retomada

O início da carreira profissional não foi simples. Após passagem pelo Americano, Magno chegou a abandonar temporariamente o futebol:

“Minha primeira passagem profissional foi no Americano, mas acabei não ficando. Parei por um ano. Foi uma fase complicada, porque começamos a questionar muitas coisas.”

Mesmo distante dos gramados, o sonho permaneceu aceso. Retomou a carreira no Espírito Santo e reencontrou o caminho das conquistas:

“Voltei para jogar a segunda divisão do Campeonato Capixaba. Subimos o Esporte Capixaba e, no ano seguinte, fui para o Espírito Santo F.C, onde também conquistamos o acesso e fomos campeões da Copa Espírito Santo. Aquilo me deu confiança novamente.”

A chegada ao Maricá F.C

A carreira seguiu com passagens por clubes de diferentes estados até o encontro definitivo com o Tsunami:

“Passei por Itabaiana, Bangu, Amazonas, Globo-RN, entre outros clubes. Em 2020 cheguei ao Maricá F.C, e foi um clube que mudou minha vida.”

Após um ano e a conquista do acesso à Série A2, saiu em 2021 e retornou de vez em 2024. Depois de uma grave lesão no joelho direito, recuperou-se e construiu uma relação de identificação profunda com o projeto do Tsunami:

“Quando percebi que estava chegando aos 100 jogos, foi uma sensação muito especial. Tudo aconteceu de forma natural. O clube abriu as portas para mim e para minha família. Somos muito felizes aqui.”

Magno também destacou a confiança recebida da diretoria ao longo dos anos:

“Tenho muita gratidão ao Douglas, que confiou em mim desde o começo. A nossa relação vai além do futebol; é praticamente um laço familiar. São mais de 15 anos de amizade.”

Para ele, atingir a marca centenária em um clube que ainda constrói sua história torna tudo ainda mais significativo:

“Muitos clubes têm calendário cheio e disputam muitos jogos por temporada. O Maricá F.C, por muito tempo, teve temporadas mais curtas. Então, chegar a 100 partidas aqui é algo muito grande para mim.”

Momentos inesquecíveis

Ao relembrar os momentos mais marcantes com o Tsunami, Magno cita o título da Taça Corcovado, em 2020, como um dos mais especiais:

“Aquele título de 2020 foi muito marcante porque foi o primeiro do clube e uma marca de superação. Tínhamos poucos jogadores, mas mesmo assim conseguimos ser campeões. Foi um grupo muito guerreiro.”

O acesso à Série A do Campeonato Carioca aparece como o ponto mais emocionante da caminhada:

“O jogo contra o Olaria foi o mais importante da minha trajetória aqui. Aquele acesso representava o sonho do clube, da cidade e de todos que participaram do projeto desde o começo. Algo que lembrarei para sempre.”

Em 2024, o Maricá F.C ainda conquistaria a Copa Rio e a Taça Santos Dumont, o primeiro turno da Série A2:

“Foi um ano mágico. Conseguimos títulos importantes e colocamos o Maricá em outro patamar. Tudo foi inexplicável.”

Entre os lances individuais, uma assistência segue viva na memória:

“A assistência para o gol do Pablo contra o Resende ficou marcada para mim. Saí do banco e consegui dar aquele passe importante para a vitória.”

A evolução do Tsunami

Presente desde os primeiros anos do projeto, Magno acompanhou de perto a transformação estrutural do clube:

“Quem viveu o começo sabe o quanto o Maricá F.C evoluiu. Levávamos roupa para casa para lavar porque não tinha rouparia. Hoje o clube tem estrutura organizada, staff qualificado, Centro de Treinamento e um ambiente muito bom. Melhorou 100%.”

E para ele, o clube ainda vai seguir evoluindo:

“O clube está crescendo ano após ano. Tenho certeza de que ainda vamos colher muitos frutos e o Maricá F.C se consolidará como um dos principais times do futebol carioca.”

Empadão e estrogonofe

Fora dos gramados, Magno revela um lado leve e familiar. Casado há mais de 10 anos, ele destaca o papel da esposa Andressa e dos filhos Heitor e Liz:

“Minha família é meu combustível. Minha esposa esteve comigo em todos os momentos difíceis, inclusive nas três cirurgias no joelho direito. Meus filhos conseguem mudar meu dia quando as coisas não saem bem.”

Além do futebol, cultiva outros hobbies:

“Gosto de praia, soltar pipa e cozinhar. Lá em casa quem manda na cozinha sou eu. Cozinhar virou uma terapia.”

Suas especialidades no fogão são estrogonofe (de carne ou de frango) e o empadão capixaba, receita típica da sua terra.

Superação

Ao final da entrevista, ao ser questionado sobre uma palavra que definisse toda a trajetória no futebol e no Maricá F.C, a resposta foi imediata:

“Superação”

O termo resume a jornada de quem saiu ainda criança de Vila Velha para perseguir um sonho, enfrentou dificuldades, precisou recomeçar após desistir temporariamente do futebol, superou três cirurgias no joelho direito e se transformou no atleta com mais partidas da história do Maricá F.C. É desse material que os ídolos são feitos.

📷Bruno Maia/Comunicação Maricá F.C

📷Paulinne Carvalho (Comemoração do título)

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